03 março, 2009

"Eu também quero"



Hoje "estou" no Ministério da Soltura, com o texto postado a baixo, fruto do desafio " Eu também quero" proposto pelo Finúrias.


Mais dia, menos dia calha a todos! E eu" Também Quis"
Obrigada pela iniciativa, Finúrias


“A casa era uma velha construção de madeira com uma cerca de tábuas pintadas de um castanho a toda a volta. Passando o portão, tinha à minha esquerda um jardim tão minúsculo que me levou a perguntar a mim mesmo para que diabo serviria. Ali, abandonado a um canto, estava um velho fogareiro de cerâmica com quase um palmo de água da chuva estagnada no fundo. A terra do jardim era preta e húmida.”
In Em busca do Carneiro Selvagem, Haruki Murakami

O único movimento que conseguia perceber era o bate-bate da porta velha, de madeira embalada pela corrente de ar. Os vidros pareciam estar quebrados há décadas. Aproximando-me da janela, conseguia alcançar uma sala com uma mesa oval ao centro, um pequeno armário de sala com algumas loiças dentro das suas portas. Havia um sofá, de costas virado para a outra janela, com um naperon. Mas, para além do naperon havia algo, percebia-se uma sombra em contra-luz. Não resisti a empurrar a porta. Movi-me pela curiosidade da sombra. A porta de madeira velha rangia ensurdecedoramente à minha frente, como se apoiasse toneladas de peso sobre as dobradiças enferrujadas. Fez-me temer. Mas entre um suspiro mais fundo e um cerrar de punhos, não perdi a coragem. Entrei e tive uma visão mais ampla da sala. Era maior, mais rica. Contornei a mesa, atentando no soalho rangente debaixo dos pés até alcançar o sofá. Ele estava certamente ali, desde aquele inverno. Tinha pior aspecto. Mas o cabelo era igualmente pouco, branco e sedoso. A paramenta de cardeal estava comida da traça por cima do corpo, muito mais magro. Saí. A porta fechou-se nas minhas costas. Um sorriso irónico espelhou-se-me na cara.

AlmaAzul

1 comentário:

Finúrias disse...

Foi um Prazer Alma, que tenhas "querido" mais este desafio :)

Obrigado
Beijo